segunda-feira, 20 de maio de 2013

O guerrilheiro rompe o silêncio.

Wellington Moreira Diniz
Quem observa o senhor franzino, de 66 anos, morador do Bairro Carmo, em Sete Lagoas, é incapaz de imaginar o peso da história que ele carrega. 

Wellington Moreira Diniz lutou contra a ditadura militar no Brasil, participou de ações armadas em bancos e quartéis para abastecer organizações como Colina, Var-Palmares e VPR com armas e dinheiro; foi responsável pela segurança do ícone da resistência, o capitão Carlos Lamarca, e presenciou a jovem Dilma Rousseff, então com 21 anos, discutir asperamente com Lamarca.

Fez, ainda, parte do grupo que roubou US$ 2,598 milhões (R$ 15 milhões, atualmente) do cofre da amante do político Adhemar de Barros; foi preso e cruelmente torturado, depois libertado em troca do embaixador suíço que havia sido sequestrado por seus companheiros. 

Exilado no Chile, foi segurança do então presidente cubano, Fidel Castro, quando este visitou o país governado por Salvador Allende, em 1971. 

Trabalhou como assistente em produções do diretor de cinema chileno Miguel Littín e do italiano Roberto Rosselini, e lutou pela independência de Angola, ao participar da tomada do aeroporto na capital Luanda.

Até a quarta-feira da semana passada, Wellington nunca havia contado sua trajetória. Em um depoimento de quase três horas, ele revelou ao Correio/Estado de Minas detalhes da sua biografia. 

Acusado de 38 assaltos, entre bancos, quartéis e automóveis, e de ter matado 12 pessoas em ações de resistência à ditadura, ele será julgado na próxima sexta-feira (24) pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. 

O deputado federal e ex-ministro dos Direitos Humanos Nilmário Miranda (PT-MG) será o relator do processo de Wellington e destaca: "A anistia não discrimina luta armada e luta pacífica. Em uma situação de ditadura é considerado lícito que os militantes peguem em armas".

"Se eu era bravo? Bravo é boi. Eu seguia as necessidades do momento", entende Wellington. A ficha do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão do Exército à época, imputa-lhe 38 ações, mas ele garante ter participado de 45. 

Sobre as 12 mortes de que é acusado, garante não ser realidade. "Eu sempre atirei para cima. Se alguém trombou na bala não é problema meu", ironiza. Um dos apelidos que recebia dos companheiros e também dos militares era 90. Uma alusão às duas pistolas .45 que sempre carregava na cintura, durante as ações. Outro apelido — que ele não gosta, aliás — era: "John Wayne da guerrilha". "Isso é folclore", rebate.

Distante da época elétrica, Wellington recita sua vida como se estivesse contando para si próprio, sobre quando vivia entre um aparelho e outro.

Chegou a assaltar três bancos no mesmo dia, sendo um no Rio de Janeiro e outros dois em São Paulo. Em quase três horas de depoimento fumou 18 cigarros, bebeu mais de uma garrafa de café — sem açúcar — e fez longas pausas. "Existem as pessoas que passam pela história e as pessoas que fazem a história. Foi uma opção de vida fazer história", atesta, deixando o cigarro queimar até o filtro.

Teve um embate e eu estava presente. Dilma tinha a convicção dela, que era uma visão mais antimilitar. E nós tínhamos uma visão mais militar. Dilma acusou o Lamarca de não ter sustentação teórica. Houve tensão, as discussões foram sérias, mas nunca chegou às vias de fato."

Wellington Moreira Diniz

Histórico da luta armada

O início

Wellington nasceu em Belo Horizonte, filho de pai comerciante e mãe dona de casa. Começou a militância política na escola técnica industrial e logo depois integrou a Ação Popular (AP). Foi preso em 1968. "Foi um escândalo. Eu morava com meus pais e fui levado de cueca para o CPOR", lembra. 

Foi interrogado, mas, como não entregava nada, seguiu preso. "Nesse tempo, a tortura não era institucionalizada. Era só pancadaria. Eles batiam muito com cacetete de borracha", detalha. 

Recebia, todas as semanas, a visita dos pais e, para não assustá-los, dizia que estava bem e se sentia em uma colônia de férias. Certo dia, durante a visita, um coronel mandou que ele tirasse a camisa. No dia seguinte, o pai de Wellington, Nereu Diniz, então com 46 anos, foi internado em um hospital e morreu de problemas cardíacos. "Meu pai não tinha nenhuma militância, não era ligado a nenhum partido político. Ele era só meu pai", indigna-se.

Ao ataque

Três dias após ele deixar a prisão, em Belo Horizonte, foi decretado o Ato Institucional número 5 (AI-5). Porém, Wellington não esperou pelo endurecimento do regime militar. Já vivia clandestinamente no Rio de Janeiro.

 Ingressou no Comando de Libertação Nacional (Colina). O contato dele era o também belo-horizontino, Juarez Guimarães de Brito. O Colina fundiu com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), de Carlos Lamarca, e formou a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

Entre as ações empreendidas na resistência à ditadura, Wellington destaca o assalto à agência do banco Andrade Arnaud, que ficava próximo ao Ministério da Guerra e à delegacia de repressão de assalto a bancos, na capital fluminense. "Isso deixou os militares furiosos", recorda. 

Outra estratégia ousada foi o assalto à agência Urca da antiga União dos Bancos Brasileiros, que era onde os militares depositavam o dinheiro, pois era vizinho da Escola Superior da Guerra (ESG). Wellington também assaltou o carro do general Syzeno Sarmento, então Ministro da Guerra.

O grande assalto

Adhemar de Barros
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a história do Cofre
A maior e mais notória ação foi o roubo do cofre da amante do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, no Bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Adhemar morreu em março de 1969 e deixou grande parte do dinheiro com sua concubina, Anna Gimel Benchimol Capriglione. 

No dia 18 de junho de 1969, 11 militantes da VAR-Palmares, Wellington entre os líderes, invadiram a mansão, renderam todos os funcionários e levaram o cofre, que em valores de hoje tinha o equivalente a R$ 15 milhões. A história do assalto é contada no livro O cofre do dr. Rui (Civilização Brasileira), escrito por Tom Cardoso.

Lamarca

Após a fusão entre a Colina e a VPR que originou a VAR-Palmares Wellington passou a comandar a terceira base operacional da organização. "O meu grupo propôs uma operação para matar o Lamarca (Carlos)", lembra. 

O motivo é que eles tinham visto uma notícia no jornal em que Lamarca, então capitão do exército e um dos melhores atiradores do país, dava um curso de tiro para gerentes de banco reagirem aos assaltos. 

Wellington não sabia, entretanto, que no final de janeiro de 1969, Lamarca havia desertado e fugido do quartel de Quitaúna, em São Paulo, com uma Kombi carregada de fuzis, metralhadoras e munição e entrado para a VPR.

Dilma

A altivez de Dilma
Após o assalto ao cofre da amante do governador Adhemar de Barros houve um encontro da VAR-Palmares em Teresópolis, na região serrana fluminense. 

Um grupo, liderado por Lamarca, priorizava as ações armadas, e outro, do qual Dilma fazia parte, tinha o discurso da conscientização da massa de trabalhadores. Eram os "foquistas", que desejavam implantar focos de guerrilha ante os "massistas".

"Teve um embate e eu estava presente. Dilma tinha convicção dela, que era uma visão mais anti-militar. E nós tínhamos uma visão mais militar, que foi o grupo que formou a Vanguarda Popular Revolucionária. Dilma acusou o Lamarca de não ter sustentação teórica. Houve tensão, as discussões foram sérias, mas nunca chegou às vias de fato", recorda Wellington.

A queda

Wellington viveu um tempo como camponês na região serrana do Rio de Janeiro preparando aquele que seria o cativeiro – caso o plano fosse efetivado – do então ministro da marinha, Augusto Rademaker, e do militar Gary Prado, que estava no Brasil e foi um dos responsáveis pela caçada que matou Ernesto Che Guevara. 

"Fui ao Rio, porque ia ter um encontro para fechar essa questão. Como eu era o segurança do Lamarca sempre ia na frente para averiguar. Na hora que abri a porta do apartamento tinha um Fal (fuzil) na minha cara". 

Wellington diz que correu, mas se deparou com outros militares. Acabou preso. Ele sabia muito. Sabia onde estava Lamarca e também o destino do dinheiro do cofre da amante do Adhemar de Barros e, por isso, foi torturado intensamente.

Exílio e Fidel

Com o sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, comandado por Lamarca, Wellington entrou na lista de 70 nomes que seriam trocados pelo diplomata. Foram para o Chile, que era governado por Salvador Allende.

Chegando ao país andino, ele trabalhou com o cineasta Miguel Littín, como assistente de câmera no filme A Terra Prometida. Porém, quando o general Augusto Pinochet tomou o poder, seu nome foi incluído na lista de procurados e teve que deixar o país. 

Antes, em 1971, quando o então presidente cubano Fidel Castro visitou o Chile, Wellington foi destacado pelo Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) para compor a equipe de segurança do líder cubano.

Cinema e Revolução

No Chile, além de trabalhar na produção de filmes, Wellington conheceu Renzo Rosselini, filho do cineasta italiano Roberto Rosselini. Quando teve que deixar o país após a tomada do poder por Pinochet, Wellington chegou à Itália, passando por México e Bélgica antes. 

Lá, conta que foi assistente de direção de Roberto Rosselini, em filmes feitos para a tevê italiana RAI. No Brasil, quando retornou, foi assistente de direção de Helvécio Ratton no filme A dança dos bonecos (1986).

Fonte: Correio Brasiliense

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