domingo, 17 de março de 2013

As raízes coloniais

É sintomático, mas não deixa de fazer sentido que o primeiro papa latino-americano seja, também, o primeiro jesuíta a comandar a Igreja. A Companhia de Jesus teve papel determinante para que o continente americano fosse hoje o principal reduto do catolicismo global, com quase metade dos fieis do planeta. 

No primeiro dia após ser escolhido pelo concílio, o papa Francisco foi à Basílica de Santa Maria Maior, local ornado com magnífico teto dourado, cujo ouro se acredita que tenha sido o primeiro levado das Américas para a Europa. Talvez de forma involuntária, o novo pontífice despertou fantasmas que ainda assombram a relação do cristianismo com o continente do qual é o pioneiro representante à frente da Santa Sé.

CONTRADIÇÕES DA AÇÃO MISSIONÁRIA NA AMÉRICA

Os jesuítas foram um dos principais braços da chamada Contrarreforma – a reação de Roma à reforma protestante. Diante da perda de fieis na Europa, encontrou-se no Novo Mundo reduto adequado para propagar a fé. Os primeiros membros da Companhia de Jesus chegaram ao Brasil em 1549, no grupo trazido pelo primeiro governador-geral, Tomé de Sousa. Espalharam-se também por toda a América Latina. 

Em seus conflitos e contradições, tiveram papel determinante para que o continente fosse o que é hoje. Por um lado, fundaram escolas – inclusive a que deu origem à cidade de São Paulo – e missões, cujas muralhas livraram milhares de índios da morte. Foi também seu trabalho que levou à proibição da escravização dos indígenas. 

Esse movimento, todavia, teve como efeito colateral a disseminação da escravidão negra. Além disso, o trabalho missionário dos jesuítas não raro se mostrou abusivo e desrespeitoso, em processo de controle social e aculturação que, se salvava indivíduos, constituía-se praticamente em etnocídio.

PECADOS DA EVANGELIZAÇÃO

Em 2000, por ocasião dos 500 anos de colonização portuguesa no Brasil, a Igreja pediu perdão pelo tratamento dispensado aos índios e pela omissão em relação à escravidão negra. Em documento de 90 páginas, publicado em março daquele ano, o papa João Paulo II reconheceu “pecados da Igreja” contra direitos dos povos e o respeito à diversidade cultural e religiosa – com explícita referência à evangelização forçada. 

“Nós sentimos que deveríamos pedir desculpas a esses povos”, disse, na Bahia, o então secretário de Estado do Vaticano, Angelo Sodano. Em 2004, o papa voltou a pedir perdão por “erros cometidos a serviço da verdade por meio do uso de métodos que não têm relação com a palavra do Senhor”.

AS MUDANÇAS DE FRANCISCO

Diante do momento de crise ética, sexual, financeira e, em certos aspectos, até da doutrina, poucos papas assumiram com tamanha pressão por mudança. Mas ninguém espere por revolução. Francisco não agirá como político de oposição que, uma vez no governo, queixa-se da “herança maldita” do antecessor. Além do mais, uma instituição com dois milênios de existência e que se considera guiada pelos desígnios de Deus não é lá muito dada a solavancos - não é coisa de divindade mudar de ideia e opinião o tempo todo. 

Tanto que o Vaticano demorou mais de 350 anos para se desculpar por ter condenado Galileu Galilei por defender que a Terra não está parada e gira em torno do Sol. Antecessor de Bergoglio, o cardeal Ratzinger defendia que a Igreja não pode mesmo se guiar ao sabor das circunstâncias, sob risco de se desmoralizar ao aderir a barcas furadas. 

O raciocínio tem sua lógica, mas não justifica exageros, como com Galileu. Conforme a coluna destacou ontem, não se deve esperar mudança em temas como aborto e homossexualidade. Mesmo o fim do celibato clerical é tabu, assim como a ordenação de mulheres. Mas deve haver mudanças, sim, em outras dimensões. Pelo perfil do pontífice, deve-se acreditar numa Igreja mais missionária, próxima aos pobres e à ação social. 

Em seus primeiros gestos, Francisco já tem dado gestos de simplicidade e de rejeição a certos paramentos cerimoniais e rituais que bem faziam o gosto de Bento XVI - que retomou vários aparatos que já haviam caído em desuso. Um dos primeiros gestos do agora papa foi ir ontem ao hotel em que estava hospedado, sem carro oficial, recolher pertences e pagar a conta. 

A simplicidade é uma virtude inequívoca e o abandono da ostentação que perdura no Vaticano será, sem dúvida, uma contribuição para a renovação de que precisa a Igreja. A interrogação é sobre a disposição de Francisco - já idoso e de saúde frágil - para enfrentar uma das principais brigas que se impõem à Santa Sé: os escândalos de pedofilia.


O Povo - Érico Firmo

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