Em meio à exuberância da floresta na Amazônia Legal, há 79,3 milhões de cabeças de boi, de acordo com os dados mais recentes do IBGE, de 2011. Isto representa 37,3% do rebanho nacional (212,8 milhões). A convivência entre gado e a mata nativa, porém, vem significando, nos últimos anos, aumento do primeiro em detrimento da segunda.
Agora, um acordo entre o Ministério Público Federal (MPF) e a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) pretende pavimentar o caminho para a construção de uma pecuária sustentável no país.
O termo de cooperação técnica foi assinado no último dia 25. No documento (disponível em PDF no endereço bit.ly/AbrasMPF), há uma série de compromissos de ambas as partes, mas o principal é a determinação de fazer com que os supermercados brasileiros não comprem mais carne de áreas desmatadas na Amazônia.
Também faz parte do acordo termos que pretendem coibir outras irregularidades ambientais e sociais, como invasão de terras públicas e incidência de trabalho escravo na cadeia produtiva. Além disso, a parceria defende a ampliação do programa Municípios Verdes, que concede benefícios a produtores rurais e empresários.
— Já tínhamos uma série de acordos fortes com frigoríficos, mas não com todos. Continuamos trabalhando para avançar, mas o acerto com a Abras é uma sinalização dos mercados para os frigoríficos de que estes devem adotar novas práticas. É a primeira vez que assinamos um pacto com os supermercados — explica Daniel Cesar Azeredo, procurador da República do MPF do Pará, coordenador do Grupo de Trabalho da Amazônia Legal.
— No primeiro momento, será feita uma campanha para conscientizar o consumidor. Com isso, o próprio mercado passa a ter o interesse pelo controlar os fornecedores, e isso repercute em relação ao desmatamento da Amazônia.
A pecuária cresceu 140% entre 1990 e 2003, período em que a quantidade de cabeças de boi pulou de 26,6 milhões para 64 milhões. Esse incremento de produção foi acompanhado pela maior pressão nas áreas de floresta, que dão lugar a pastagens, de acordo com levantamento feito pelo Greenpeace (“O rastro da pecuária na Amazônia”, disponível na internet em bit.ly/GadoGreen) em 2009. Somente entre 1996 e 2006, a área de pasto aumentou em cerca de 10 milhões de hectares só na Amazônia, o que corresponde ao território da Islândia.
Um importante termômetro para a pecuária sustentável é o índice de desmatamento. Azeredo sustenta que, desde 2009, o MPF vem aumentando a intensidade do seu trabalho de controle do gado na Amazônia. Naquele ano, havia apenas 600 propriedades registradas no cadastro rural. Hoje, de acordo com ele, são quase 70 mil.
— Pelo acordo, o frigorífico só poderia adquirir gado de fazendas com cadastro. Isso traz facilidade de controle de desmatamento. E, assim, o Pará tem batido recordes sucessivos de queda de desmatamento — diz Azeredo. — Mas ainda precisamos adotar outras medidas para melhorar o controle da atividade, como a rastreabilidade do gado. Temos as listas, como a de embargo do Ibama e a de trabalho escravo do Ministério do Trabalho e Emprego, mas as informações precisam ficar mais acessíveis para o consumidor. A sociedade civil tem que fazer o acompanhamento.
Tornar a pecuária sustentável é atacar o maior vetor de desmatamento do mundo (o impacto ambiental da cadeia da exportação de gado da Amazônia foi detalhada pela ONG Greenpeace em relatório publicado em 2009, disponível em bit.ly/FarradoBoi).
Caberá a Abras — que congrega 83 mil lojas pelo Brasil, por onde passam cerca de 25 milhões de consumidores todos os dias — informar e orientar os supermercados sobre práticas que ajudem a coibir até erradicar o trabalho escravo na cadeia da carne, combater o desmatamento, incentivar a produção em áreas já abertas, apoiar as populações tradicionais e combater o abate clandestino.
— Resolvemos dar um salto na qualidade dos produtos bovinos. Boas praticas já foram colocadas e grandes redes estão anunciando, nos próximos dias, novos processos de rastreabilidade de produtos com mais segurança — afirma Márcio Milan, vice-presidente da Abras. — Ainda temos o desafio do peixe, do frango e do suíno, mas a plataforma do bovino arrastará tudo isso. Acredito que até o final do ano teremos boas novidades.
Ambientalistas elogiam o acordo feito entre o MPF e a Abras, mas fazem ressalvas para a necessidade de outros instrumentos de proteção para as florestas. Por exemplo, o médico veterinário Ivens Domingos, analista de projetos do WWF-Brasil, destaca a necessidade de buscar mais critérios sociais e ambientais para regular os mercados, ao mesmo tempo que o consumidor precisa ser informado com clareza qual é a procedência da carne que ele está consumindo.
— Essa é uma iniciativa importante para mover o setor em busca da pecuária sustentável. Precisamos de sistemas eficientes e com menor impacto socioambiental. Não apenas a pecuária, mas também outras cadeias produtivas — defende Domingos. — Ainda há desafios. Queremos entender melhor como funciona a parte operacional no campo, quais são as ferramentas de monitoramento e como os mercados vão influir e apoiar a mudança de paradigma. Precisamos melhorar, sobretudo, o controle de rastreabilidade, origem e abate do gado.
Extraído de: O Globo

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