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| A consciência de Ustra, afirmou ele, está tranquila. “Quero dizer que tenho consciência com tranquilidade, nunca ocultei cadáver, nunca cometi assassinato" |
O coronel reformado e ex-comandante do DOI-Codi de São Paulo, Carlos Alberto Brilhante Ustra, disse hoje (10) em declaração que antecedeu seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV) que ele cumpriu seu papel na ditadura no “combate ao terrorismo”.
“Desejo ressaltar que cumpri ordens legais, do Exército Brasileiro, e que enfrentei organizações que cujo objetivo final era a ditadura do proletariado, era o comunismo, inclusive organizações a que nossa atual presidenta da República pertenceu”, disse, no texto lido aos integrantes da CNV.
Ustra disse também que, se não fosse pelos militares, o Brasil seria hoje “um enorme Cubão”, e não existiria democracia no país. “Lutamos pela democracia, e terroristas foram eleitos pelo voto dentro da democracia que nós preservamos. A luta armada não foi de combate à ditadura, foi para a implantação do comunismo no país.”
O passado de Dilma na resistência à ditadura havia sido explorado na campanha de 2010 por apoiadores da ditadura. Em palestra dada a portas fechadas pelo então adversário da presidenta, José Serra, no Clube Militar da Aeronáutica, no Rio, o tucano foi questionado por alguns militares porque sua campanha não “abria a biografia da senhora Dilma e expunha as verdadeiras intenções do PT”.
Ustra se referiu à atuação da presidenta Dilma Rousseff, durante a ditadura militar. “Ela integrou quatro grupos terroristas” que tinham como objetivo final “a implantação de uma ditadura do proletariado, o comunismo. Derrubar os militares e implantar o comunismo".
"Isso consta de todas as organizações”, disse o coronel que comandou o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna do 2º Exército em São Paulo (DOI-Codi-SP), órgão de repressão da ditadura militar, entre 1970 e 1974.
Durante a ditadura, a presidenta Dilma integrou as organizações clandestinas Política Operária (Polop), Comando de Libertação Nacional (Colina) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), dedicadas a combater a ditadura militar. Condenada por "subversão", ela passou três anos presa no Presídio Tiradentes, em São Paulo, entre 1970 e 1972.
Denúncias
Ustra compareceu à CNV amparado por habeas corpus que lhe garantia o direito de permanecer calado, mas, frente às perguntas, o coronel acabou falando.
“Quero dizer que tenho consciência com tranquilidade, nunca ocultei cadáver, nunca cometi assassinato, agi na lei e na ordem, nunca fui um assassino. Vou em frente e não vou me entregar.”
“Quando fui transferido para São Paulo no início dos anos 70, os terroristas já haviam assaltado mais de 300 bancos e carros-fortes. Tinham encaminhado mais de 300 militantes para a China para treinar a guerrilha, já haviam atacado quartéis, roubado armas e sequestrado três diplomatas. Em face disso foi criado o DOI-Codi. Eramos homens prontos para o combate, cumprindo ordens”, disse acentuando que seria apenas mais um na cadeia de comando.
Para Cláudio Fonteles, um dos membros da Comissão da Verdade, Ustra, ao ser confrontado com a documentação reservada do DOI-Codi, Ustra “deu uma versão insustentável de mortes em combate”. Documentos apresentados pela CNV apontam em 50 o número de mortos no órgão durante o período em que foi dirigido pelo coronel.
Já o advogado e ex-defensor de presos políticos José Carlos Dias, que também integra a CNV, o depoimento foi emocionalmente forte e mexeu com os presentes. “Hoje foi um dia muito penoso para mim. Eu defendi mais de 500 presos políticos e a maior parte vítimas do coronel Ustra. Defendi pessoas que foram mortas sob as ordens dele”.
Hirohaki Torigoe
Na semana passada, o Ministério Público federal apresentou à Justiça Federal em São Paulo denúncia contra Ustra. Segundo o grupo de Justiça de transição, Ustra é o responsável pela ocultação do cadáver de Hirohaki Torigoe, integrante do Movimento de Libertação Popular, um grupo de resistência à repressão.
Na semana passada, o Ministério Público federal apresentou à Justiça Federal em São Paulo denúncia contra Ustra. Segundo o grupo de Justiça de transição, Ustra é o responsável pela ocultação do cadáver de Hirohaki Torigoe, integrante do Movimento de Libertação Popular, um grupo de resistência à repressão.
Questionado a respeito, Ustra afirmou que o jovem foi enterrado com nome falso porque, quando morto, usava identidade falsa.
Os procuradores afirmam que Torigoe foi sequestrado pelos órgãos de repressão em 5 de janeiro de 1972. De acordo com duas testemunhas, o militante foi levado para o interrogatório no DOI-Codi, e houve uma discussão entre os policiais sobre a conveniência de interrogá-lo naquele momento, em que estava ferido.
A família só soube da morte por uma informação divulgada na televisão no dia 19 de janeiro.
A ficha necroscópica afirmava se tratar de “elemento terrorista que travou tiroteio com policiais”, mas colocava como nome de batismo Massahiro Nakamura. Ao ver uma notícia a respeito, Nakamura procurou o Deops para retificar a informação, mas o então delegado Alcides Singillo recusou-se a promover a retificação de óbito, o que levou a que a família descobrisse o destino do corpo apenas na década de 1990, quando foi descoberta a vala clandestina aberta em Perus.

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