Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Os estatutos do homem, segundo Thiago de Mello.

O poeta amazonense Thiago de Mello, no poema “Os Estatutos do Homem”, escrito durante seu exílio no Chile em 1964, chama atenção para os valores simples da natureza humana.


OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

Thiago de Mello

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

(Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Leia mais...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O casamento da censura com a propaganda

Pacifista extremado, inimigo de todo tipo de militarismo, Bertrand Russell chegou a ser duas vezes confinado pelo governo inglês por opor-se às guerras de 1914-18 e 1939-45. A primeira num quarteirão em Londres, a outra na Escócia. Era socialista.

Viajou à União Soviética nos primeiros anos do regime comunista e deparou-se com a férrea censura à imprensa e à liberdade de manifestação do pensamento. Mais o monopólio da propaganda pelo governo bolchevique. De volta à Inglaterra, irritado, escreveu que os russos mais felizes eram os analfabetos, aliás, naqueles idos a maioria, “porque a capacidade de ler, naqueles tempos de jornais subsidiados, era um obstáculo à aquisição da verdade”.

Não vamos chegar a tanto, o analfabetismo existe no Brasil atual, até em índices maiores do que há décadas atrás, mas nossos analfabetos, mesmo sem ler jornal, submetem-se a dois fatores iguais e mais sofisticados com os criticados pelo genial matemático e filósofo. Fala-se da censura e da propaganda. Não a censura policial de tempos atrás, sequer da propaganda dos governos, que obviamente existe. A realidade atual é sutil e perversa.

Surge muito mais profundo o risco enfrentado não apenas pelos analfabetos, mas por toda a população, diante dessa sofisticada manipulação imposta pelas elites.

Primeiro a censura, praticada com a cooperação dos próprios meios de comunicação: suprimiu-se, se é que algum dia existiu, o debate a respeito do que seria uma sociedade evoluída e organizada através da própria organização e evolução do indivíduo. Estabeleceram-se padrões que a mídia não contesta, mas, pelo contrário, integra-se neles. 

Lemos nas folhas e assistimos nas telinhas, agora telões, ser a livre competição a razão principal de nossas vidas. Obriga-se a todos considerar o vizinho do lado um adversário. 

O resultado é que as elites transformaram nossa existência num campo de batalha onde, não por coincidência, vencem sempre o mais forte e o mais esperto, sob a empulhação de que todos são livres para competir. Mentira, a competição se fere entre cartas marcadas.

Quanto à propaganda, serve para alimentar a farsa. Melhor para o cidadão sonhar com a troca anual de carro, a maioria sem poder, ou entregar-se à pirataria das facilidades bancárias, ou a comidas e remédios maravilhosos do que dedicar recursos e tempo, também quando pode e possui, para construir uma sociedade mais justa. Para instruir-se, instruir os filhos e meditar sobre os princípios e os fins de todos nós.

E nem adianta imaginar que seríamos mais felizes se fôssemos analfabetos. O casamento da censura com a propaganda gerou essa ilusão que sufoca o ser humano e impede a sociedade de alcançar suas possibilidades ideais. Um dia, quem sabe…

Carlos Chagas
Leia mais...

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Minha culpa, minha tão grande culpa

Errar é humano. Eis aí uma verdade simples, a retratar o quanto somos imperfeitos. Aliás, segundo Cousins, esta é a nossa essência: a imperfeição. 

Daí a importância da humildade, definida por Confúcio como “o sólido fundamento de todas as virtudes”.

Fiquei a pensar nisso há poucos dias, ao ler que o chefe de polícia de Trento, na Itália, foi a público pedir desculpas a uma senhora que havia sido grosseiramente atendida por um policial. 

Registro, inclusive, que esse gesto de humildade foi acompanhado do envio de flores para a casa dela.

Essa notícia me trouxe à memória um outro episódio, acontecido no Japão. Um policial de Kyoto utilizou uma viatura policial para dar carona a alguns conhecidos que estavam indo jogar golfe. 

Alguém viu e denunciou o uso indevido de um bem público. Eis que o delegado-chefe foi a público, em nome da instituição, pedir desculpas pela falta do seu subordinado.

Há também o caso do motorista de Manchester, no Reino Unido, que estacionou e trancou uma ambulância sem observar que havia um idoso lá dentro, o qual só conseguiu ser resgatado cinco horas depois. 

Após tomar todas as providências que o caso requeria, punindo o servidor, a administração municipal foi a público declarar, de forma clara, que pedia desculpas pelo erro, prometendo não mais repeti-lo.

Do outro lado do mundo, na Austrália, é digno de nota o belo gesto do primeiro-ministro Kevin Rudd ao pedir desculpas em nome da nação às crianças vítimas de abusos de todo gênero em orfanatos e centros de recuperação daquele país.

Cite-se ainda o policial norte-americano que multou sua própria viatura, estacionada em local irregular, pedindo desculpas a um cidadão que reclamara. Ou até mesmo um parlamentar britânico que foi a público reconhecer ter gasto indevidamente dada verba que recebera, desculpando-se e prometendo não mais errar.

Todos esses equívocos foram fatos da vida. Aconteceram, e certamente irão acontecer de novo. O que contou, porém, foi a resposta ao erro. Talvez esteja aí uma reflexão oportuna em um país no qual é cada vez mais observada a ironia de Millôr Fernandes: “Errar é humano; botar a culpa nos outros também”.

Morreu uma criança em alguma fila de hospital? É simples: a culpa é do governo anterior. Soltaram irresponsavelmente algum assaltante perigoso, que acabou por matar mais gente pelas ruas? Fácil: é tudo culpa das leis. 

Morreu alguém vítima das péssimas condições de nossas estradas? Culpa da imprudência, claro. Um cidadão foi humilhado em alguma repartição? Ora, são as péssimas condições de trabalho – nada que um bom concurso não resolva.

Está morrendo gente de fome sobre um solo tão rico? Culpa da crise econômica, evidentemente. Apontou-se algum caso de corrupção? Tudo calúnia, intriga da oposição. Os corruptos ficaram impunes? Culpa da Constituição Federal. 

Alguns menores estão matando inocentes pelas ruas? Ora, é esse Estatuto deles! Está faltando infraestrutura? É a falta de dinheiro. Gastou-se muito em subvenções e propaganda oficial? Culpa do sistema político, claro!

Pois é. Talvez, no final das contas, nosso único problema esteja naqueles homens públicos que nunca erram – não foram nomeados ou eleitos, mas sim ungidos! Esquecem-se daquele provérbio italiano segundo o qual “quando o jogo acaba o rei e o peão voltam para a mesma caixa”.

Pedro Valls Feu Rosa
Leia mais...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Lei de defesa dos usuários de serviços públicos será votada nesta semana

Depois de mais de uma década mofando em alguma gaveta do Congresso, será votado nesta semana o projeto que cria a lei de defesa dos usuários de serviços públicos. Será uma espécie de Código de Defesa do Consumidor específico para órgãos estatais e concessionários.

RESPONSÁVEL
O projeto define uma série de obrigações --e mais: prevê que os prestadores de serviços "responderão pelos danos que seus agentes causarem ao usuário". Até o STF (Supremo Tribunal Federal) já tinha dado prazo para que os parlamentares criassem a lei, prevista em emenda constitucional de 1998.

ESPECIAL
A aposentadoria especial para garçons também deve ser aprovada. O tempo obrigatório de contribuição ao INSS cai de 35 anos (homens) e 30 anos (mulheres) para 25 anos. Já a PEC das domésticas fica para agosto.

BRINDE
E o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), vai se casar em setembro. Há dois anos, ele ficou noivo da blogueira potiguar Laurita Arruda Câmara.
*
Na festa de aniversário dela, colocou uma aliança Cartier dentro de uma taça de champanhe para fazer surpresa na hora do brinde.

BRINDE 2
Outro parlamentar do Rio Grande do Norte que está com casamento marcado é Felipe Maia (DEM-RN), filho do senador José Agripino Maia, presidente do DEM. Ele mandou fechar o resort Txai, na Bahia, para a festa. Seus convidados ficarão nos 40 bangalôs e suítes do lugar, onde já se hospedaram, por exemplo, o ex-presidente da França Nicolas Sarkozy e sua mulher, Carla Bruni.

BRINDE 3
Cada noite num bangalô do Txai sai por R$ 2.120, mais 15% de taxa de serviço. No apartamento mais simples, a diária é de R$ 1.140.
Leia mais...

domingo, 14 de julho de 2013

O pior inimigo

Políticos e marqueteiros quebram a cabeça para transformar as derrotas da presidente Dilma em vitórias, mirando um prazo específico: o final deste ano, início do próximo. 

Hoje, a 15 meses da eleição, Dilma até pode despencar nas pesquisas e ficar na berlinda. Mas ela tem de entrar em 2014 demonstrando força e real chance de vencer.

Enquanto o Congresso volta à vidinha de sempre, com o ônus do enterro da constituinte exclusiva, em 24 horas, e do plebiscito, em menos de duas semanas, Dilma tenta ficar com os louros de ter oferecido uma resposta às reivindicações populares.

Enquanto médicos esperneiam contra os vetos ao Ato Médico, o serviço obrigatório dos formandos e a importação de estrangeiros, Dilma contabiliza o apoio da população por ter enfrentado o corporativismo para garantir mais atendimento.

Enquanto as centrais sindicais vão às ruas, divididas entre ser a favor ou contra o governo e cheias de dúvidas sobre sua capacidade de mobilização, Dilma elogia olimpicamente o direito à manifestação, mas condena o bloqueio das estradas. Quem haveria de discordar?

Enquanto o circo pega fogo, não militantes vão às ruas, prefeitos vaiam e as centrais tentam recuperar a força e o tempo perdidos, Dilma vira as baterias para os EUA, por causa da espionagem, e para os europeus, por terem vetado o sobrevoo do avião do presidente da Bolívia, Evo Morales. Pega bem.

Esses contrastes são milimetricamente estudados e se sustentam sobre um dado poderoso: a imagem administrativa de Dilma esfarela, mas a imagem pessoal ainda é a de uma presidente séria, honesta, bem-intencionada. Eis uma boa alavanca para a retomada. E tome exposição!

Tudo muito bom, tudo muito bem, só falta combinar com o maior "adversário": o desempenho do governo. A política vai muito mal, a economia vai pior. E não dá para enxergar nenhuma luz no fim do túnel --nem no final deste ano, início do próximo.

Eliane Cantanhêde
Leia mais...

sábado, 13 de julho de 2013

A terapia do susto

Nelson Motta

Estamos vivendo dias de espanto, com Renan Calheiros se tornando o paladino das forças do bem, ávidas para atender prontamente as reivindicações populares, mesmo cortando na carne do Senado, e com o apoio de Sarney!

Estamos dependendo da independência, da grandeza, da integridade e do espírito público do PMDB de Henrique Alves e Eduardo Cunha para evitar desastres armados pelos estrategistas do Planalto e apoiados pelo PT e o PCdoB, como o plebiscito de araque. Que fase!

Seguindo orientação de Lula, 25 governadores, 37 ministros, a base parlamentar aliada e os movimentos sociais foram recebidos pela presidente, filmados e fotografados, mas não falaram nada e nem foram consultados nas propostas e decisões do governo, só ouviram em silêncio, remoendo sua raiva, frustração e impotência. Os prefeitos pelo menos vaiaram.

Pela primeira vez na história deste país, prefeitos recebem dinheiro de um governo e vaiam. Mas todo mundo entendeu que eles não querem um jabá, mas negociar democraticamente a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios e depender menos do poder imperial de Brasília.

Com o povo de suas cidades bufando nos seus cangotes, os prefeitos querem mostrar serviço, como nunca na história deste país.

Quando 81% dos brasileiros avaliam os políticos como “corruptos ou muito corruptos”, para conter sua voracidade, associada a empresários inescrupulosos e funcionários venais, são criados incontáveis mecanismos de controle, e de controle do controle, aumentando o poder da burocracia e atrasando os projetos e investimentos públicos.

Criando mais dificuldades para vender novas facilidades, aumentam a corrupção. São mais mãos a serem molhadas, mas o custo é sempre repassado aos consumidores finais: nós.

Mas o presidente do PT atribui as dificuldades do governo a falhas de comunicação, como se o governo não gastasse mais de um bilhão de reais por ano em triunfais campanhas publicitárias de João Santana vendendo o Brasil Maravilha de Lula e Dilma. 

Pelo contrário, o governo é vítima de seu excesso de comunicação, contrastado fragorosamente pela realidade das ruas.

Nelson Motta, O Globo
Leia mais...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Com a ajuda das esquerdas, calaram as esquerdas

Mesmo com número considerável de companheiros sonhando com a candidatura do Lula, o sentimento no PT é de apoio à reeleição da presidente Dilma. Ruim com ela, pior sem ela, constatam, exceção para a inviável inclusão do ex-presidente na disputa.

Ainda assim, registra-se no partido uma sensação de mal-estar diante dos rumos adotados pelo atual governo, aliás, oriundos do anterior: cada vez mais o modelo econômico aproxima-se do neoliberalismo. 

Cada vez menos ouvem-se protestos pela adesão surda à estratégia imposta pelo capital diante do trabalho. Será essa a marca que o PT deixará incrustada na crônica futura?

As privatizações caminham a passos largos. O petróleo, que um dia foi nosso, agora passa a ser deles, na medida em que concessões e leilões de províncias petrolíferas são sempre mais oferecidas e mais adquiridas por empresas estrangeiras. 

Dentro e fora do pré-sal, diga-se. Aeroportos, portos, rodovias e ferrovias são concedidas ao capital privado. Os bancos predominam como nunca, a atividade especulativa supera de muito a atividade produtiva.

As ironias dos tucanos a respeito de estarem os donos do poder rezando pela cartilha deles atingem menos o espírito petista do que as prováveis acusações de algum ainda desconhecido candidato capaz de trazer a ideologia para as campanhas eleitorais. 

Aquilo que os generais-presidentes não conseguiram parece agora conquistado pelos seus antigos adversários: com a ajuda das esquerdas, calaram as esquerdas.

Cegos, surdos e mudos, os companheiros não atentam para o que vai acontecendo na Europa, onde o povo ganha as ruas em protesto contra o aumento de impostos, demissões em massa, desemprego crescente, supressão de investimentos sociais e de direitos trabalhistas -a fórmula cruel dos neoliberais para enfrentar crises econômicas por eles mesmo provocadas.

Senão passando ao largo, ao menos o Brasil ainda não foi atraído para o olho do furacão desse impasse que assola os países europeus, mas é inevitável que seus efeitos nos atinjam, como estão atingindo os Estados Unidos. 

Nessa hora, surgirá o debate ideológico, mas muito tarde, incapaz de evitar explosões. Tudo porque o PT abriu mão de seus princípios quando existiam condições para limitar o neoliberalismo e apontar caminhos pacíficos para o aprimoramento social.

Carlos Chagas

Leia mais...