sábado, 18 de maio de 2013

Sumiço de papel higiênico na Venezuela é coisa da esfera pública, não da privada

Que papelão! As autoridades venezuelanas podem achar que se trata de mais um complô dos Estados Unidos, ou, talvez, de uma insidiosa manobra do que sobrou do empresariado privado do país para desestabilizar o governo legitimamente eleito do presidente Nicolás Maduro, mas o desaparecimento dos rolos de papel higiênico das prateleiras das vendas e supermercados do país foi produzido pela própria esfera pública, e não pela privada. 

É que para criar um clima não-inflacionário ilusório (afinal as eleições precisavam ser ganhas a todo o custo), as brilhantes autoridades do país decidiram, no ano passado, congelar os preços de alguns produtos básicos, entre os quais o papel higiênico mais simples (com menor quantidade de fibras de celulose longas por centímetro quadrado, e, portanto, de grau de aspereza relativa mais elevado). 

A indústria local bem que tentou cumprir a norma, reduzindo o tamanho dos rolos e também sua metragem. Mas o resultado agora está aí: um déficit de 50 milhões de rolos. 

Estes deverão ser importados em regime de urgência e, portanto, sem o processo tradicional de licitação. Uma grande oportunidade para o setor específico, e aliás muito eficiente, da indústria brasileira.

Leia a análise do jornalista e diplomata Pedro Luiz Rodrigues

A culpa é da esfera pública, não da privada

O Excelentíssimo Senhor Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, está com um problemaço para resolver, só identificado depois das tensões do agitado período eleitoral: falta papel higiênico no país; de imediato 50 milhões de rolos são necessários. Uma grande oportunidade comercial para o Brasil.

Maduro está irritadíssimo com a incapacidade do Estado venezuelano de resolver essa constrangedora dificuldade de abastecimento. É que o papel higiênico de tipo popular, de menor índice de fibras longas (macias) de celulose por centímetro quadrado, passou a ter seu preço controlado desde fevereiro do ano passado, pelo cabide de emprego para burocratas chamado de Superintendência Nacional de Custos e Preços.

Para segurar os preços (com óbvios fins eleitorais) a SUNACUPRE proibiu que o papel higiênico tivesse seus preços aumentados. Diante da alta inflação venezuelana, os produtores conseguiram por algum tempo viabilizar a produção diminuindo o tamanho e a metragem dos rolos. 

Mas com a demanda em alta (os marqueteiros venezuelanos asseguram que o aumento da procura se deve aos bons resultados dos programas de distribuição de renda no país), a situação chegou ao extremo: acabou o papel! (não, não vou repetir a brincadeira que se dizia, quando criança, diante de tal exclamação).

O governo, diante da situação de emergência nacional, foi rápido: anunciou que importará os faltantes 50 milhões de rolos de papel. Muito provavelmente será dispensada licitação e do ofertante talvez seja exigida a condição de encaminhar a encomenda por via aérea. 

O frete não deverá ser barato, pois o tipo de papel em questão embora seja muito leve por unidade, ocupa grande volume, o que exigirá aeronaves de carga de tamanho especial.

Maduro mandou seu ministro do Comércio, Alejandro Fleming, explicar a situação à imprensa. Para evitar perguntas embaraçosas ele só prestou esclarecimentos à estatal Agência Venezuela de Notícias. 

Como bom chavista, apesar da óbvia escassez do produto nos supermerados, Fleming pediu ao paciente povo venezuelano que “se tranquilize e não se deixe manipular pela campanha feita pelos meios de comunicação de há escassez do produto”.

Animado com suas próprias palavras, o Ministro explicou tudo com detalhes: não há problema de produção, uma vez que a que existe atende o consumo mensal habitual, na casa de 125 milhões de rolos de papel higiênico por mês. 

O problema é que nos últimos meses, por razões que não explicou (talvez relacionadas a descontroles havidos no período eleitoral), teria havido uma ‘sobredemanda’ de 40 milhões de rolos.

A imprensa, ao registrar as dificuldades na esfera do abastecimentol, relembrou declaração feita há alguns anos pelo extraordinário e arguto ministro do Planejamento, Jorge Giordani, que saiu-se com a pérola de que “o socialismo se constrói a partir da escassez”.

Para fazer frente ao desabastecimento geral, o governo concordou anteontem em aumentar em 20% os preços de venda do frango, da carne e dos produtos lácteos. 

O Ministro Félix Osório, outro entusiasta defensor do socialismo bolivarinista-chavista, busca acalmar os ânimos, informando que essa semana estarão chegando ao país 760 mil toneladas de alimentos importados (carnes, óleo comestível, atum e sardinha em lata, açúcar), em valor próximo a 600 milhões de dólares.

Clovis Cunha/Cláudio Humberto

Nenhum comentário: